terça-feira, 28 de julho de 2015

Está decidido. Eu não serei uma boa mãe!

Quando descobri que estava grávida eu pirei, confesso, achei que ter e criar uma filha seria um bicho de sete cabeças e por isso eu tinha que estudar e criar diversos métodos para alcançar sucesso no projeto “ser mãe”. Nunca me pareceu ser algo natural, instintivo, eu não fazia ideia de como começar.

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Foto: Andreia Nery


De um lado algumas pessoas me diziam "você vai saber o que fazer na hora", "faz o que seu coração mandar", "o amor é a chave de tudo"... do outro, me diziam isso é o "certo" e isso "errado" ou "pode" e "não pode". Bem fácil né?!

Eu fui conseguindo gerir esse conflito até pouco tempo, quando a Manu começou a ter muita dificuldade para dormir, tentei seguir todas as regras, todas as dicas e NADA deu certo. Fiquei muito frustrada, sentindo que estava falhando como mãe, tentando achar o famoso "onde foi que eu errei?".

Foi neste momento que caiu a minha ficha de quanta carga eu tinha absorvido e de quanto tudo isso estava me fazendo mal, para vocês terem uma ideia eu listei tudo o que eu já ouvi sobre o que é ser uma boa mãe:

1) Ela teve um parto natural, com uma doula.
2) Fez uma cesárea, mas entrou em trabalho de parto.
3) Fez uma cesárea porque quis, ela tem o direito de escolher a forma que seu filho vai nascer.
4) Na amamentação segue a livre demanda e seu filho mamará no peito até o momento que ele decidir.
5) Não segue a livre demanda, dá de mamar de três em três horas e vai introduzir o desmame no prazo X.
6) Tem o filho como centro do seu universo. Nada mais importa em sua vida, ela é uma MÃE.
7) Não trabalha fora, seu filho não frequenta escola, também não terceiriza sua educação com uma babá.
8) Seu filho come legumes e vegetais como seu fossem pipoca, não consome sal ou açúcar, na verdade só come alimentos orgânicos. Comem sozinhos no método BWL (quando o pequeno não come papinha, já se introduz alimento em pedaços) e não precisa de estímulos como brincadeiras ou desenhos para convencê-los a comer.
9) Dorme junto com os filhos seguindo o conceito de cama compartilhada, pois este método constrói crianças mais seguras.
10) Na verdade não, a cama compartilhada arruína a vida conjugal do casal, por isso seus filhos dormem em seus quartos.
11) Não assiste TV e quando assiste, só permite desenhos altamente culturais.
12) Escuta música clássica desde que o filho estava em sua barriga.
13) Não deixa seus filhos mexerem em tablets ou smatphones.
14) Seus filhos fazem os próprios brinquedos, pois os eletrônicos "brincam" pela criança.
15) Estimulam e contratam até coaching para que seus filhos desenvolvam desde a infância características de líderes e vencedores.
16) Segue o slow pareting (movimento que acredita em levar a vida com mais calma, sem tantos estímulos ou atividades).
17) Seguem alguma pedagogia: Waldorf, Montessori, Sócio-construtivista, humanista...
18) O quarto do seu filho é montessoriano, livre de móveis e com estímulos para o desenvolvimento de sua independência.
19) Pega seu filho colo a todo o momento, acredita na criação com apego.
20) Não pega seu filho no colo toda hora para ele não se acostumar e se tornar uma criança com apego.
21) Não deixa o filho chorar quando ele está em seu quarto ou nos momentos que está tentando fazê-lo dormir porque pode gerar traumas e sentimento de abandono.
22) Deixa seu filho chorar porque ele precisa aprender a se acalmar sozinho, algo importante para que ele seja uma criança segura.
23) Deixa de castigo e coloca o pequeno para pensar no canto, um minuto por ano de vida dele.
24) Não deixa o filho de castigo, pois a criança não sabe como pensar no que fez e a ação não gera resultado.
25) Segue a rotina do sono, mesmo que seu filho não esteja se adaptando, acredita que a insistência e a rotina permitirão um ambiente de sono assertivo.
26) Não veste o filho de azul ou rosa, o deixa brincar com o que quiser, não determina o que é de menino ou menina, acha que gênero não se debate na infância.
27) Acredita que o estimulo de gênero é importante para formação do indivíduo, mesmo que no futuro ele decida seguir outro caminho.
28) Não grita, não perde a calma, se mantém sempre centrada e baseia toda a sua criação no diálogo.
29) Consegue arrumar tempo para praticar atividade física, limpar a casa, fazer compras, comida, cuidar do filho e está sempre disponível para o marido quando ele chega.
30) Nasceu para ser mãe e não se permite questionar se está feliz. Não fica entediada ou frustrada.


PS: Eu não estou dizendo que seguir algum item dessa lista é errado tá? Eu mesma sigo muitos e me culpava muito por não seguir outros.


Meu parto foi cesárea agendada (tá, não foi por opção, mas foi como aconteceu), mal amamentei, fiquei com a Manu no colo enquanto pude, não fiz livre demanda (dava de mamar quando ela chorava ou a cada três horas), dei chupeta (esqueci de colocar na lista), fiquei frustrada por ter deixado minha carreira para trás, já gritei com a Manu, já coloquei ela de castigo, ela assiste TV e come vendo desenho, já dou o tablete para ela mexer (só 30 minutos por dia, mas dou), vai para escolinha desde os quatro meses entre outras coisas erradas que pelo jeito eu faço.


A Manu não é o centro da minha vida, não mesmo, minha vida tem vários centros, meu marido, meu trabalho, eu mesma e ela. Por isso, desisti de ser uma boa mãe, eu simplesmente não consigo, vou ser o que eu posso ser, sem medo de ser feliz e tentando lidar com a culpa maternal que me assola vez ou outra por não conseguir.

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