sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Criança e aprendizagem

Por Kelly Nogueira

Uma preocupação latente por parte da maioria das mães é a questão da aprendizagem: mamar, virar, sentar, mastigar, engatinhar, andar etc, são ações esperadas para este ser que chega em nossas vidas. E afirmo mais, são motivos de ânsia e desejo por parte da família.

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Para destacar como se dá esta relação entre a criança e o aprender, abordarei alguns pontos do capítulo 4 do livro “O saber em jogo: a psicopedagogia propiciando autorias de pensamento”, de Alícia Fernández.

Fernández inicia o texto elencando citações que nortearão nosso olhar acerca do tema criança e aprendizagem. A primeira citação nos leva a refletir sobre a ideia de que a criança é um Sujeito que se molda inicialmente pela linguagem, linguagem essa do outro, imbuída de desejo e expectativa sobre esse Sujeito, e que isto, por si só já é algo decisivo na vida do Sujeito.

E mais a diante, cita uma fala do Diretor Executivo do Unicef (1999), acerca das crianças que morrem por causas relacionadas à fome; e porque não traçar uma analogia com as crianças que são silenciadas em seu universo por não conseguir obter êxito em seus estudos?

Talvez o fato de rotulá-las com alguma patologia seja o suficiente para o adulto que a olha e a determina como tal. E diante disto, a autora afirma “criança é devir” (2001:79), e se a criança é o devir que é construção e construtor, o olhar deste adulto para esta criança deve alçar além daquilo que a rotulam, porque o devir é o que vem a ser num processo constante, e de resultado impreciso, que irá depender da potencialidade e das oportunidades ofertadas a esse sujeito.

As crianças silenciadas em sua inteligência ferida requerem certa urgência de tratamento, a priori por ser tratar de crianças em processo de formação, havendo, portanto, grandes possibilidades de reversibilidade da situação. E mais, há que se considerar também, a sociedade na qual estas crianças estão inseridas, e tal sociedade reclama por êxito profissional. E diante deste quadro, o conceito de inteligência é colocado em xeque, e questionado sobre qual lugar ocupa na aprendizagem?

Mas então, o que é inteligência?

E Fernández responde “A inteligência é uma das fontes de singularidade e potência criadora.” (2001:80).

A autora aborda outro conceito para inteligência, a “Desadaptação Criativa”, o que para ela é o que “nutre o desejo de conhecer e a necessidade de perguntar (ao mesmo tempo, fonte e substância do pensar” (2001:81). Ora todo pensamento, todo ato de inteligência supõe uma interpretação da realidade externa, buscando assimilar o objeto de conhecimento, através de conceitos que já temos sobre o assunto, atribuindo-lhe significados e acomodando-o aos esquemas já estruturados, ou seja, transformando o que não é próprio em próprio. Este processo é chamado de Aprendizagem Criativa. Cabe, no entanto, ressaltar que este processo não pode ser definido como uma adaptação, ao contrário, ocorre uma Desadaptação Criativa, pois só se aprende quando não se está satisfeito, quando há dúvida, há o desejo de buscar o novo.

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A inteligência tende à desadaptação, a possibilidade de criar. E no processo de desadaptação, por sua vez, percebemos que “a inteligência não se constrói no vazio: ela se nutre da experiência de prazer pela autoria” (2001:83). Descobrir-se autor do próprio pensamento e das transformações que pode causar a realidade e a si mesmo, é muito prazeroso e traz alegria ao sujeito, pois o coloca na condição de autor de sua aprendizagem.

Todo diagnóstico da inteligência em sujeitos deve ser realizado em situações de aprendizagem, nas quais haja a presença de um aprendente e um ensinante, visto que, toda aprendizagem se dá num encontro, e o que se produz nesse espaço-entre é conhecimento advindo da construção dos dois.

Alícia Fernandéz, ainda, tece uma critica muito sagaz a “Teoria das Inteligências Múltiplas” propostas por Gardner, que considera a existência de oito inteligências e meia: Linguística, Lógico-matemática, Musical, Espacial, Cinestésico-corporal, Interpessoal, Intrapessoal, Naturalista, Supranatural ("meia-inteligência”).

Segundo, Fernández: “não precisamos recorrer à suposta existência de uma inteligência diferente para cada atividade” (2001: 83). O que tem sido amplamente usado pela sociedade, e principalmente, pela escola para justificar o fracasso escolar de sujeitos nas disciplinas. É mais simples determinar que tal sujeito possua inteligência musical, do que impor-se o desafio, enquanto instituição educacional, de fazer com que todas as disciplinas sejam atraentes para este, e possibilitar a este sujeito o desenvolvimento de sua capacidade de pensar e o reconhecimento de sua autoria.

Para ilustrar melhor esta a relação criança e aprendizagem, cito a reportagem que saiu na Folha de S. Paulo, em 07/04/2013, intitulada “Pai assiste a aulas e ajuda filho com paralisia a se formar jornalista”, cujo assunto era sobre um jovem de 26 anos, vitima de paralisia cerebral severa, com um sonho de se formar em jornalismo. O pai, então, assiste às aulas, anota as lições dadas pelos professores, auxilia o filho na feitura das provas escrevendo no papel aquilo que o filho lhe soprava, intermediando pensamentos e assessorando em reportagens e entrevistas. Esse foi, em minha opinião, um exemplo de sujeito que teve a oportunidade de ser o devir, que construiu e constrói conhecimentos, que é autor de seus pensamentos, que tem seu saber reconhecido, e que não teve seu desejo encerrado na sua paralisia ou em determinado tipo de inteligência. Mas que ousou e alçou o sonho! Segundo o professor deste jovem, "Marcos tem inteligência acima da média.” E para o jovem Marco, o pai: "é uma extensão do meu corpo. Quando não posso fazer algo, ele está sempre ali para me ajudar, nunca para me atrapalhar".

E aqui cabe uma última reflexão: “Até que ponto, está sendo possibilitado a nossas crianças ‘extensões’ para que estas desenvolvam sua inteligência, sua criatividade e sua autoria?

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